Qual seria a cor resultante da soma da letra A mais a letra C?

Qual seria a cor resultante da soma da letra A mais a letra C?

Definitivamente seria um tom de verde com uma sombra cinza claro. Qual seria o som de triângulos amarelos de diferentes tamanhos se chocando? Com certeza seria o som do sino dos ventos que fica pendurado na janela da sala do meu apartamento. E como eu me sentiria se só existisse o mês de outubro ou a quinta-feira? Me sentiria muito mal, marrom não é uma cor tão prazerosa para mim. E por fim, como seria voltar no tempo!? Subindo em espiral em sentido horário! Se essas perguntas te embolaram ou não fazem sentido algum, senta que lá vem história. Se fez algum sentido para você como abacaxi tendo gosto amarelo cintilante, seja bem-vinda estrelinha a uma viagem colorida e cheia de formas. 

Certo dia eu estava fazendo uma super-pesquisa extremamente curiosa e hiperfocada, engolindo artigos e testemunhos de estudos neurológicos sobre experiências muito curiosas de algumas pessoas, como super habilidades musicais depois de um acidente esquiando, memória fotográfica desde os 10 anos de idade, compreensão profunda da matemática depois de uma infecção, enfim, muita coisa acontece por aí. Até que alcancei uma profundidade azul elétrico na pesquisa, como um raio mesmo, onde tudo se esbarrava na sopinha de mielina neuronal. E eu aposto que tem alguém aí lendo que adora esse tipo de conteúdo, a televisão está sempre nos apresentando esse show de talentos nos programas de auditório.

Nesse oceano de informações, um livro chamado Nascido em um Dia Azul de Daniel Tammet publicado em 2006 me apareceu. O livro relata a história do Daniel que cresceu com grandes dificuldades de se relacionar socialmente. Não entendia as piadas dos colegas, não compreendia ironia nem sarcasmo, mas tinha uma intensa relação com números e a matemática. Daniel vê, sente e experimenta as multidimensões dos números de modo que o permite construir e resolver equações complexas em segundos. Quanto é 478374 vezes 9558?  Enquanto eu tô digitando os números na calculadora ele já deu a resposta. É 4572298692! Também pode decorar e declarar sequências absurdas de números aleatórios.  Daniel sobre sua relação com o número Pi: “Pi é para mim uma coisa extremamente bela e absolutamente única. Como a Mona Lisa ou uma sinfonia de Mozart, o Pi é sua própria razão para amá-lo.”. Abaixo temos uma pintura feita pelo próprio Daniel demonstrando sua perspectiva em relação ao número Pi.

Para Daniel o resultado da multiplicação de 53 por 131 é o espaço resultante entre os dois números, formando assim uma paisagem numérica colorida e admirável. Mas minha nossa! Como será que é isso na cabeça dele!?

Enfim, quanto mais eu avançava na pesquisa, mais eu me intrigava com o assunto e buscava entender porque eu sentia uma relação tão familiar com o relato do Daniel e de tantos outros que apresentavam suas percepções de múltiplos sentidos cruzados. Até que em um dos vídeos sobre o assunto, um tema que preencheria os espaços em rosa claro das minhas dúvidas surgiu. Neste conteúdo, diversas pessoas relatavam suas constantes e imutáveis percepções sinestésicas dos elementos de sua linguagem. Um homem sentia gosto em nomes, outro dizia que o número 5 não gostava da número 4 porque ela era provocativa demais, o 9 é falso e é aliado do número 7, e ainda outra pessoa dizia que o alfabeto formava uma paleta de cores em sua mente e que a letra A era vermelha. Mas espere aí! Como assim? A é amarelo! O B é violeta, C é azul clarinho, já o D é um verde musgo que parece ter o brilho de uma letra molhada. Pausei por um momento e admirei meu alfabeto mental, mas sempre com a mesma sensação de escuridão quando chego perto da letra O que parece ter tido sua cor sugada seguindo com as letras arredondadas P e Q e ainda depois tenho que descer até o roxo acinzentado Z, bem independente sozinho no fundo. 

Pois então, o vídeo deu seguimento às explicações das possíveis condições neurológicas associadas ao fenômeno sinestésico que eu mesmo experienciava. Algumas pesquisas com ressonância magnética funcional apontavam para interconexões entre regiões dos lóbulos temporais e occipitais e a região chamada V4 no cérebro com sujeitos que diziam ver cores nos grafismos, essa região é responsável pelo processamento de cores (Fig. 1). Junto disso, o caráter hereditário também chamava atenção dos pesquisadores, foi então que resolvi tirar minha prova. Logo mandei mensagem para a minha irmã mais velha e perguntei: qual a cor da letra A? “Oxê, não tem cor nenhuma”, ela disse. Fiz a mesma pergunta sem resposta interessante para minha mãe e pai, até que perguntei a minha outra irmã e a resposta foi surpreendente, “Amarelo”. Na hora eu confesso que fiquei muito chocado. Tipo assim. QUÊ!? Não acredito! Era uma mistura de “Eureka!” com “caramba, isso é verdade”

Dei seguimento a pesquisa fazendo a ligação entre as experiências sinestésicas que eu sentia e as diferentes manifestações que estavam presentes nos relatos. Não demorou muito para o processo todo construir uma mudança de paradigma dentro de mim, ela nascia do profundo subjetivo dos meus sentidos físicos e ia até as ansiedades do jovem adulto universitário no Brasil pós golpe. Enfim, tirou um pouco o foco das adversidades da vida para um olhar mais interno e profundo, desconstruindo os sentidos e decompondo as emoções em fileiras coloridas, poéticas e entrelaçadas no espaço-tempo da linguagem no cérebro hominídeo.

Fig. 1 – Média de ativação em nano amperes por milissegundo da região V4 dos lóbulos temporais posteriores entre sujeitos com sinestesia em azul e controles em marrom. Ambos foram expostos aos grafismos enquanto a ressonância magnética coletava os dados.

Sinestesia

Com vários tons de vermelho intercalados com azuis e a letra A muito presente no final, a palavra Sinestesia vem do Grego (syn = junto e aisthesis = percepção) se refere a percepção voluntária ou involuntária da experiência entre estímulos de uma modalidade desencadeando percepção em outra modalidade de sentido. Claramente o termo não se refere apenas ao fenômeno neurológico, mas também a figura de linguagem e obras artísticas que evocam diferentes sensações intercruzadas. Mas, tudo isso vem para exemplificar que o mundo material pode ser experienciado de formas tão inusitadas quanto nossa mente é capaz de imaginar. Nesses próximos passos vou exemplificar para vocês algumas das formas que a sinestesia se expressa em mim e naqueles que eu conheci na bibliografia do assunto.

Cromestesia

Esse termo por muito tempo andou colado com a ideia geral de sinestesia, mas agora é reconhecido como uma manifestação derivada do fenômeno. Charles-Auguste-Édouard Cornaz foi quem relatou e deu corpo ao termo em seu trabalho com colorblindness outra condição onde as pessoas não possuem a habilidade de enxergar as cores ou diferenciá-las. Algumas relatavam suas experiências com uma relação oposta, onde experienciavam as cores com tudo e o pesquisador polarizou os termos, Cromestesia vs Colorblindness. Foi apenas em 1881 que Eugen Bleuler e Karl Bernhard Lehmann em sua publicação apontaram características específicas associadas a essa forma de sinestesia onde luz, cor e formas eram elicitadas a partir de estímulos sonoros, vrum vrum de carro e água pingando, por exemplo. No final do séc. XIX as pesquisas nos Estados Unidos expandiram em relação aos termos e outras modalidades foram classificadas, carregando junto com a cromestesia várias outras experiências, como a já relatada cor-grafismo onde os símbolos possuem cores, a gustativa-lexical onde palavras evocam sabores. Imagina só Leonardo tendo gosto azul (meme da Nazaré), e também a sinestesia de espaço-tempo

Aqui vou colocar uma imagem de uma obra de Wassily Kandinsky, um artista plástico russo do séc. XX que pintava incríveis quadros a partir de obras sinfônicas.

Título (Inglês): Yellow Red Blue; Ano: 1925; Encontra-se em: Centro Pompidou, Paris.

Aqui tem um vídeo animado de uma peça do Kandinsky.

Aqui estão pinturas minhas de percepções que tive ao ouvir uma música (não citada) e quando resolvi pintar a palavra COMUNICAÇÃO.

Personificação Linguística Ordinal

Nos anos 1890, Flournoy e Calkins colheram relatos de pessoas que diziam que sequencias como alfabeto, dias da semana, meses e números possuíam personalidades e gêneros. O 7 poderia ser um homem investigador, ou o 3 ser uma menina criança. O sábado ser uma dona de casa e novembro ser um adolescente mimado. Bem, eu nunca tive percepções como essas, mas os números ímpares em tons mais escuros não são tão simpáticos como os números pares e suas tonalidades mais claras. 

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Gustativa Lexical

Nesta modalidade de sentido, palavras pronunciadas evocam automaticamente intensos gostos e cheiros. Os relatos apontam que o gosto é acompanhado de temperatura e textura, como o relato do sujeito JIW da pesquisa que diz que a palavra “jail”, cadeia em Inglês, tem gosto de bacon frio e duro. Já CB de 14 anos, sente gosto daquele doce de goiabinha que compramos no mercado com batatas amassadas junto. Pois é, já dá para perceber que vai ficando cada vez mais malucas as experiências, mas também acho incrível a diversidade de sentimentos.  Senti falta de pesquisas brasileiras no assunto enquanto pesquisava, imaginem só a palavra “golpe” ter gosto de gado bem alimentado e pato assado! 

Sequências Espaciais

Hoje é rosa, segunda-feira. Vejo o próximo domingo alongado e azul um pouco acima da minha cabeça. O antigo já foi, já rodou de novo. Um giro completo leva os sete dias da semana, mas tendo o domingo como último dia. Sempre que chega o domingo tenho uma sensação de alongamento, como se o dia fosse esticado ao máximo até que dou um pequeno salto para alcançar a próxima segunda-feira. Amanhã já poderei ver a segunda que se passou e acompanhar a paisagem pela terça-feira verde, vendo sexta e sábado diretamente à minha frente. Na quarta-feira poderei ver o espaço entre a segunda e o domingo bem nítido, mas também terá a quinta-feira e sua peculiaridade. Neste dia, que se encontra meio desencaixado do resto tenho um sentimento parecido com o mês de outubro onde há uma forma cuboide desacoplada do todo quase que flutuando solitária sem fazer parte da ciranda. 

Desde que me reconheço o tempo passa assim, cirandando, girando e girando sem aquele formato retangular estranho do calendário Gregoriano. Mas, isso não acontece somente com o tempo, para mim e para outras pessoas, sequências numéricas e temporais são dispostas geograficamente no espaço mental simbológico. Por exemplo, quando conto de um até 100 posso sentir os números me rodeando, o 1 começando a minha frente caminhando para a direita até o 5 onde há uma curva de 90º acima, circulando meu corpo até chegar o 31 que fica no meu ombro direito descendo longitudinalmente e virando 90º até o 41 que fica exatamente no ponto do vórtice cardíaco nas minhas costas.  

Nessa modalidade de sinestesia apontada pelos pesquisadores da área, todo tipo de sequência em um cérebro com essas características pode ser experienciada espacialmente, como os dias da semana e meses, números, alfabeto, número de calçados, estações do ano, etc. Os relatos são diversos e as pesquisas apontam para conexões entre os lóbulos parietais e os giros angulares. Essas duas regiões cerebrais são responsáveis pela cognição espacial e numérica.

Aqui vou colocar algumas imagens coletadas em artigos mostrando as diferentes formas que as pessoas podem experienciar isso. 

Assim é como eu vejo a semana, começando na segunda-feira rosa e terminando no domingo azul claro. Existe uma elevação considerável entre o começo e o fim, estando o domingo a mais ou menos 30º acima da segunda, dando uma sensação de "descer" no começo de uma nova semana.

Então já vemos que essa plasticidade do cérebro nos permite ver, cheirar, sentir e quase lamber qualquer tipo de coisa que vemos por aí. Entretanto, o intuito desta matéria que estou trazendo para vocês não é expositivo. Para mim, deixar ir o paradigma de que meu cérebro é uma máquina foi difícil, antes me via completamente encaixotado (quase literalmente) até que vi na plasticidade do cérebro, mais ainda no infantil, diversas capacidades a serem exploradas e utilizadas a favor de um movimento muito complexo de percepção das nossas capacidades cognitivas. Por muito tempo nossa sociedade alimentou um massacre à diferença. No momento em que vivemos atualmente, é muito fácil divulgarmos nossas descobertas e classificá-las de acordo com o que o método científico nos propõe. Confesso que sofri um pouco ao escrever esse artigo por conta do formato ainda limitado da minha escrita linear. Os fenômenos sinestésicos não são lineares, qualquer classificação passa por um processo de exclusão para uma conclusão. Vimos que algumas áreas cerebrais são relacionadas com os fenômenos, outras nem piscam uma luzinha se quer, mas o que me chama mais atenção em tudo e que me brilha os olhos é a multiplicidade de expressões disso tudo. Em tudo que a expressão temporal da arte toca uma cor e som se combinam, um cheiro e forma se encaixam, um relógio gira e um nova cor aponta no céu, uma letra faz as pases com a outra. 

Todo esse conhecimento que adquiri ao longo da minha pesquisa e das revelações que tive comigo mesmo, me mostraram que tenho diversas capacidades ainda inexplorados dentro de mim. Hoje tenho a autonomia de me conhecer de diversas formas, um dia foi através desses artigos que me deram mais força para me expressa, mas agora expresso tudo isso através da minha arte. Uso as cores para me expressar melhor, uso as formas para organizar meus aprendizados, decorar números de cartão, lembrar de um nome pela cor que ele tem. Enfim, tudo que somos deve servir para alguma coisa, né? Eu agora estou tentando usar tudo isso a serviço de algo que seja proveitoso para muitos, principalmente para você que está lendo agora. Espero que a forma como vês o mundo seja algo que te fascina, te dá forças, te coloca para cima, porque se não for você a se reconhecer como você é, quem fará suas descobertas?  

 

Referências

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Cytowic, R. (1995). “Synesthesia: Phenomenology And Neuropsychology: A Review of Current Knowledge.”.

Cytowic, Richard E; Eagleman, David M. (2009). Wednesday is Indigo Blue: Discovering the Brain of Synesthesia (with an afterword by Dmitri Nabokov). Cambridge. 

ERNEST, P. (1986). Mental Number Line Images. Teaching Mathematics and Its Applications, 5(1), 1–2.

Hupã, J.-M., & Dojat, M. (2015). A critical review of the neuroimaging literature on synesthesia. Frontiers in Human Neuroscience, 9. 

Kadosh, R. C., & Gertner, L. (2011). Synesthesia. Space, Time and Number in the Brain, 123–132. 

Mann, H., Korzenko, J., Carriere, J. S. A., & Dixon, M. J. (2009). Time–space synaesthesia – A cognitive advantage? Consciousness and Cognition, 18(3), 619–627.

Hubbard, E. M., & Ramachandran, V. S. (2005). Neurocognitive Mechanisms of Synesthesia. Neuron, 48(3), 509–520.

Piazza, M., Pinel, P., & Dehaene, S. (2006). Objective correlates of an unusual subjective experience: A single-case study of number–form synaesthesia. Cognitive Neuropsychology, 23(8), 1162–1173.

Simner, Julia; Ward (2006). “The taste/smell of words on the tip of the tongue”. Nature. 444: 438. 

Felipe Gonçalves de Abreu

Felipe Gonçalves de Abreu é estudante de Graduação no curso de Bacharelado em Ciências Biológicas – Meio Ambiente pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (NUPEM) em Macaé – RJ. Tem experiência em Educação Ambiental e Educomunicação. É membro do projeto de Extensão Universitária ProRec na produção de conteúdo de divulgação científica e ensino de ciências. Também atua como instrutor de língua Inglesa. Atualmente desenvolvendo o projeto de conclusão de curso na área de Ecofisiologia Vegetal.

Um comentário em “Qual seria a cor resultante da soma da letra A mais a letra C?

  • 28 de junho de 2021 em 23:09
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    Muito bom!!! Informação muito importante, texto incrível!

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