Os algoritmos do fim do mundo

Uma recente matéria indica que o Brasil alterou o tempo do Relógio do Apocalipse e nos colocou mais perto do fim da humanidade. O relógio foi criado por cientistas da Universidade de Chicago pelos diretores do Boletim dos Cientistas Atômicos e intenciona medir o risco de uma guerra nuclear, onde meia-noite representa a destruição do planeta. Desde 2007, ele também começou a pesar os efeitos das mudanças climáticas. É assustador pensar que existem cientistas que se concentram nesses tipos de análise. Porém, esses cientistas são aqueles que, para nossa sorte, estudam para nos manter em alerta com relação às situações de crise.

A análise mais recente desses cientistas, no campo ambiental, cita o Brasil ao mencionar o quadro de elevação na emissão de gases do efeito estufa e o que chamaram “aumento da frequência de eventos extremos”, como incêndios de grandes proporções. No campo tecnológico, os cientistas reforçam a necessidade de criação de normas internacionais que disciplinem o uso da informação, sob risco de erosão das democracias, e aqui está o “x” da questão.

Se o Brasil alterou o relógio do tempo nesse último ano, devido a todas as catástrofes climáticas do qual somos responsáveis, cabe ponderar que essas catástrofes foram fruto de uma eleição forjada no conhecimento profundo do funcionamento de algoritmos de mídias sociais. É claro que temos responsabilidade sobre nossas escolhas erradas de governantes, mas tivemos um processo eleitoral totalmente contaminado por regras criadas por programadores para amplificar o número de views, que apostam sistematicamente na polarização e na radicalização dos discursos para maior divulgação, acesso e veiculação de propagandas.

A emergência de grupos antivacina, terraplanista, fascista e pro armamentista, em suma, pessoas ressentidas de seu parco poder de influência, é resultado desses algoritmos de mídias sociais. Basta um rápido acesso nos conteúdos veiculados pelo YouTube e você verá que, por mais que se tente navegar por autores comprometidos com a ciência e com o conhecimento produzido com base em métodos científicos, os vídeos tendem a se tornar cada vez mais “grotescos”. Essa é a melhor definição.

É com base nesses algoritmos que se formam as bolhas de leitura conceitual retórica em um mundo em constante e rápida transformação. Essas bolhas de leitura do mundo tendem a reforçar nossas posições mais radicais. Ou seja, você começa a procurar por um tema, e esse tema tende a encadear outras ideias cada vez mais visualizadas e com tendências ao radicalismo, fugindo completamente da esfera da ciência, que é um ambiente do diálogo da percepção e verificação dos dados.

Essas bolhas evitam o diálogo e radicalizam visões em um estado democrático. Está criado o ambiente para uma “guerra de torcidas” e de retóricas vazias ancoradas em pressupostos dogmáticos que não podem ser atacados pela ciência, pois essa se utiliza de métodos científicos que atacam hipóteses produzindo resposta pontuais.

Como evitar esse processo?

Uma das saídas é bloquear e denunciar os canais de Fake News, assim como evitar seu financiamento. Cabe aqui destacar a existência de iniciativas como Sleeping Giants, por enquanto, restrito às plataformas Twitter e Facebook. Esse perfil mapeia os sites de Fake News exercendo uma ostensiva fiscalização dos mesmos e, por fim, notifica e expõe as empresas que têm propagandas nesses sites. A divulgação dessas empresas no Twitter promove uma evasão massiva de seguidores que pressionam as mesmas a adotar critérios mais rigorosos com relação aos sites de divulgação da marca. Por fim, cabe relatar que existem inúmeros sites que atuam na divulgação e combate a falsas notícias, como o Fakebook.eco.

É muito importante adotarmos todos uma ação ostensiva contra as Fake News e, principalmente, precisamos pressionar os donos dessas mídias sociais. Somente dessa forma que poderemos garantir a sobrevivência de leituras menos maniqueístas de um mundo onde tudo se relaciona e que a regra é termos muitas gradações entre o que é certo e errado, devendo adotar uma postura crítica e dialógica.

Rodrigo Lemes

Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia (1999), mestrado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (2002) e doutorado em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007). É professor do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (NUPEM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2009. Atua na área de Desenvolvimento Sócioambiental e Ecologia Evolutiva, com experiência em gestão de projetos de caráter interdisciplinar. É representante do NUPEM no Conselho Consultivo do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba (CONPARNA).

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