Mudanças climáticas e o lembrete incômodo: não há mais tempo para otimismo
O ano de 2020 tem sido tão intenso que parece que estamos nele há muito mais que dez meses. A pandemia dificultou ainda mais uma tarefa que já não era nada fácil: sobreviver no planeta Terra. Lamentavelmente, a pandemia não é a única crise global com que temos que nos preocupar. No pano de fundo da existência da nossa espécie (e de todas as outras espécies) está a crise climática.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a temperatura média global irá subir 1,5°C, ou mais, até 2050. Você pode pensar que um grau e meio nem é tanta coisa, afinal, já inventaram o ar condicionado. Mas a verdade é que não sabemos ao certo quais serão as consequências dessa mudança de temperatura. As previsões não são muito animadoras: derretimento de geleiras, aumento do nível do mar, intensificação de fenômenos meteorológicos (tempestade, inundação, ondas de calor, secas prolongadas), água dos oceanos se tornando mais ácida e alteração na frequência e intensidade das chuvas, interferindo na agricultura.
Somado a isso temos a extinção em massa e possíveis novas fontes de carbono perigosas. Cientistas a bordo do navio “Akademik Keldysh” descobriram concentrações elevadas de metano no Mar de Laptev, perto da Rússia. Eles acreditam que o metano tenha sido liberado de depósitos no Ártico que armazenam enormes quantidades de metano e outros gases de efeito estufa ¹. O metano é capaz de acelerar muito o aquecimento global, por ser cerca de 80 vezes mais forte que o dióxido de carbono. Se a suspeita de que depósitos no Ártico estão liberando metano for confirmada, essa pode ser uma nova fonte de carbono sendo liberado para a atmosfera, acelerando o aquecimento global.
As mudanças climáticas são a realidade que bate em nossa porta com um lembrete incômodo: se quisermos continuar vivendo nesse planeta, precisamos agir agora. Ao nos depararmos com problemas tão complexos e que ocorrem em escala global podemos pensar que não seremos capazes de superar esse desafio, mas as soluções podem estar bem diante de nossos olhos. Em seus milhares de anos de evolução a natureza se encarregou de produzir ecossistemas que funcionam em um equilíbrio impressionante, e que fornecem benefícios essenciais à nossa sociedade. A esses benefícios damos o nome de serviços ecossistêmicos ².
Ecossistemas costeiros como manguezais, prados de ervas marinhas e pântanos salgados são conhecidos como “ecossistemas de carbono azul” pois armazenam grandes quantidades de carbono. Esse é um serviço ecossistêmico essencial para a regulação do clima pois retira o carbono em excesso da atmosfera, auxiliando no controle da temperatura. Algas marinhas também possuem papel importante em armazenar carbono em grandes profundidades. Em um estudo recente³ encontraram fragmentos de DNA de macroalgas em amostras a cerca de 5.000 Km da costa. Os cientistas confirmaram que as algas marinhas realmente atingem o oceano aberto e muitas vezes afundam consideravelmente, por cerca de 4 mil metros de profundidade.
Outro serviço ecossistêmico prestado por ecossistemas costeiros é o controle da erosão e proteção da costa contra desastres naturais 4, como tsunamis e ciclones. No Brasil temos os manguezais, restingas e alguns recifes de corais desempenhando esse importante papel. As raízes da vegetação que existe nesses ambientes funcionam como uma rede que contém o impacto das marés, impedindo a erosão. No caso dos recifes os corais atuam como barreira, diminuindo a força com que a água atingirá a costa.
Além da regulação climática existem inúmeros outros serviços ecossistêmicos de que dependemos, como o fornecimento de água e alimento, controle de doenças e purificação do ar/água. O planeta nos oferece tudo isso de graça, mas nossa forma de existir tem prejudicado o meio ambiente sem deixar tempo para que a natureza recupere seu equilíbrio. Precisamos transformar nossa maneira de ver o mundo e aprender a existir em harmonia com as demais espécies. Só assim será possível que o equilíbrio se mantenha, e os serviços ecossistêmicos de que dependemos também.
Referências:
¹ WATTS, Jonathan. In: ‘Sleeping giant’ Arctic methane deposits starting to release, scientists find: Exclusive: expedition discovers new source of greenhouse gas off East Siberian coast has been triggered. [S. l.], 27 out. 2020. Disponível em: https://amp.theguardian.com/science/2020/oct/27/sleeping-giant-arctic-methane-deposits-starting-to-release-scientists-find?CMP=share_btn_tw&__twitter_impression=true. Acesso em: 28 out. 2020.
² PANASOLO, Alessandro et al. Percepção dos serviços ecossistêmicos de áreas verdes urbanas de Curitiba/PR. BIOFIX Scientific Journal, v. 4, n. 1, p. 70-80, 2019.
³ ORTEGA, Alejandra et al. Important contribution of macroalgae to oceanic carbon sequestration. Nature Geoscience, v. 12, n. 9, p. 748-754, 2019.
4 SPALDING, Mark D. et al. The role of ecosystems in coastal protection: Adapting to climate change and coastal hazards. Ocean & Coastal Management, v. 90, p. 50-57, 2014.