Ciência é Poder – múltiplas faces de uma disputa que a Universidade não te ensina

Você já parou para pensar que, dentro da universidade pública, existe uma universidade que não está interessada na produção de um modelo amigável à natureza?

Pois é. E o pior: isso não é acidente. É projeto. O que vamos discutir aqui é como a universidade transforma saber em mercadoria e, ao fazê-lo, coloniza mentes enquanto expropria territórios – físicos e simbólicos.


O Ecossistema Brasileiro de Produção de Conhecimento

Quem financia a pesquisa? Como esse dinheiro chega ao pesquisador e que consequências isso traz para o ensino e para a soberania do conhecimento?

O Brasil opera com um modelo de produção científica que difere significativamente de outros países.
Vamos começar esse assunto explicando que no Brasil o ensino está sob a alçada do Ministério da Educação, e a CAPES funciona como principal órgão de fomento à formação superior com foco na pesquisa, regulando a pós-graduação no ensino superior. Aqui está o “pulo do gato”, pois uma das principais formas de interferência governamental na construção de um conhecimento soberano acontece via recursos de outros órgãos: o CNPq, do Ministério da Ciência e Tecnologia, e as agências estaduais de fomento. Estes órgãos aplicam recursos diretamente ao docente, sem passar pela instituição de ensino. Isso confere grande independência a quem consegue aprovar projetos, especialmente considerando o crescimento dos editais de divulgação científica.

As fundações universitárias, por seu turno, fazem a captação de recursos de empresas – essas, sim, garantem a retenção de uma parte para custear essa estrutura, o chamado “overhead”. As fundações cumprem uma série de etapas para garantir a transparência e mesmo a vista dos pares durante um longo processo de aprovações e acolhimento da pesquisa privada dentro da universidade.
Já os recursos de órgãos do governo não sofrem desse “problema burocrático” e também não permitem esse overhead. O resultado é que tanto a pesquisa financiada por empresas privadas quanto a pesquisa de interesse dos órgãos de fomento estatal têm um papel fundamental na criação da “universidade paralela”, onde o docente-pesquisador adquire alta monta de recursos para manutenção de uma rede de alunos, muitas vezes com prejuízo da sua atuação como professor em sala de aula. Nessa posição de gestor de recursos, o professor acaba por se ver assolado por funções para as quais não tem formação: fazer orçamentos, pagamentos, prestar contas e alimentar sistemas de gerenciamento, e se sente aliviado de não ter que dar aula. Uma boa discussão sobre esse tema está disponível no blog do Alexandre Diniz (https://www.blogalexdiniz.com/post/a-greve-e-a-universidade-paralela), vale a pena dar um pulo lá e conferir!

A questão que resta aqui é: esse professor pesquisador, que atende os editais do estado, estaria trabalhando na construção de um projeto de interesse da população, um projeto estratégico de nação? Ou estaria, ainda que inconscientemente, servindo a uma lógica de produtivismo acadêmico e de captura de recursos que pouco tem a ver com as necessidades reais do povo brasileiro?

Síntese:
O sistema de fomento brasileiro, ao canalizar recursos públicos diretamente para o docente sem passar pela instituição, cria uma universidade paralela afastada dos problemas locais e transformando o professor em gestor de projetos. O ensino de graduação fica em segundo plano e a pesquisa passa a depender menos de um projeto coletivo de nação e mais da capacidade individual de captar recursos em editais cujas direções já são definidas politicamente de forma difusa. Ambos os modelos de financiamento privado e público estão mantem vícios.

A Universidade como Território de Disputa

Se a universidade é um campo de poder, quem está ocupando esse campo e com que projeto político?

A estrutura apresentada no tópico anterior automaticamente denuncia uma vantagem clara e um risco estrutural (o tal vício citado na última frase). A vantagem é que a universidade se torna produtora de conhecimento científico, ensinando a fazer ciência. Isso é estratégico para a autonomia de uma nação. Naturalmente, esse conhecimento deveria estar voltado para problemas reais da sociedade, especialmente no que diz respeito ao nosso modelo de desenvolvimento tecnológico.

O risco surge quando o ensino e a pesquisa são capturados por uma mentalidade empresarial – que é a roupagem contemporânea do velho mundo imperialista, berço natural das modernas universidades. Esse é, na minha opinião, o ponto mais perigoso. Isso justifica o cuidado sobre o recurso que entra via fundações, mas e quando o estado for agente da adoção de uma visão empresarial?

Aqui talvez seja importante revelar que não faço uma apologia à criação de uma ciência ou universidade neutra. Claramente é preciso dizer que esse espaço é um campo de poder e disputa e que, por mais democrático que se pretenda mantê-lo, ele é ocupado por uma visão ideológica. Qual? Que grupo ou visão determina os rumos da pesquisa, o tipo de olhar sobre a natureza e sobre o que é permitido? Será que as pesquisas vão menos em direção à felicidade e mais em direção ao domínio da natureza?

A universidade pública, quando se propõe a trabalhar para uma nação, torna-se palco de disputa entre dois campos: o ensino como estratégia de nação e a pesquisa como estratégia de desenvolvimento do modelo tecnológico vigente. Será que há uma tentativa explícita de capturar a subjetividade das pessoas dentro da universidade?

Um exemplo claro de como essa política opera nos é fornecido por uma pesquisa rápida sobre o lançamento de editais pelo órgão de financiamento em pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, a FAPERJ. O modelo de fomento básico à pesquisa da FAPERJ, APQ 1, é um programa universal e de fluxo livre quanto ao tema. Por meio deste, qualquer pesquisador doutor fluminense pode submeter propostas em qualquer área do conhecimento humano. No entanto, avaliando em perspectiva, percebemos que o APQ 1 costuma apresentar fluxos mais escassos de chamadas, incluindo diversas interrupções, dadas às restrições orçamentárias do estado. Por outro lado, a Diretoria de Tecnologia e Inovação da FAPERJ opera um fluxo contínuo de múltiplos editais segmentados ao longo de todos os anos. Os Editais de Inovação apresentam altíssima frequência e dividem a inovação em dezenas de ramificações recorrentes: Doutor Empreendedor, Inova Fit, Apoio a Startups, Líder de Inovação do Nosso Estado (LINE), Bolsas de Inovação Tecnológica (INT) e o programa INOVATRIP. Ou seja: o Estado prefere pagar para criar startup do que para financiar ciência “pura”.

Se considerados os valores gastos em projetos, uma pesquisa rápida em buscadores apresentará o que realmente importa: os valores aportados em Inovação representam o dobro do que é aplicado em pesquisa básica, assim como o teto para financiamento de propostas na modalidade APQ 1 se mostra extremamente reduzido.

Síntese:

A universidade não é neutra! É, sobretudo, território de disputa. E o Estado, ao financiar muito mais inovação empresarial do que ciência básica, já tomou partido. A pergunta não é se há ideologia, mas sim de que lado ela está. Os números da FAPERJ mostram que o lado escolhido é o da mercadoria, não o da soberania do conhecimento.

O Neoliberalismo na Educação: Subjetividades como Mercadoria

Para além do dinheiro, o que está sendo produzido dentro da universidade é um tipo de subjetividade – e que tipo é esse?

O que é preciso dizer aqui é que, apesar do debate sobre o dinheiro privado na educação via de regra passar por uma discussão sobre o fato destes locais serem tratados como empresas, estudantes e familiares como clientes, professores como prestadores de serviço, essa questão envolve muitas camadas.

Ou seja, não se trata apenas da mercantilização do ensino ou da interferência de grandes grupos na legislação, como a reforma do ensino médio – trata-se também da captura do bem mais valioso dos nossos tempos: as subjetividades. Mais que o lucro ou o desvio de dinheiro público, está em jogo o poder desses grupos de construir as lentes pelas quais enxergamos o mundo, naturalizando o produtivismo, enaltecendo a meritocracia e ensinando habilidades socioemocionais focadas em resiliência, autogestão e adaptabilidade – mecanismos de controle subjetivo para formar futuros trabalhadores apaziguados, que não questionam o sistema e culpabilizam a si mesmos pelo próprio fracasso.

O projeto é perverso e a necessidade de atuar em uma noção de produção de riqueza em detrimento da produção de soberania ainda acaba por implantar uma visão de que CEOs brilhantes e inovadores são o suprassumo do que deveria ser o produto da educação superior.

Em que momento educadores, comunidade escolar, pesquisadores e estudantes, que naturalmente desenvolvem novas narrativas sobre como a natureza funciona, foram colocados como menores do que os poucos que conseguem vender facilidades no campo da iniciativa privada? A resposta é simples: a captura do estado por modelos neoliberais dentro dos regimes democráticos acontece em todas as esferas, incluindo os espaços de produção do conhecimento. Mas a equação é mais sinistra quando, uma vez capturada a subjetividade da função da produção de conhecimento, a educação se torna refém de um modelo que impede avanços no campo epistêmico.

Não se trata, portanto, apenas de “empresariar” a universidade. Trata-se de formar pessoas que não consigam imaginar outro mundo possível – que vejam a competição, o desempenho e a empregabilidade como fins em si mesmos, e que interpretem o fracasso como falha individual, e não como fruto de um sistema estruturalmente desigual.

Síntese:
O neoliberalismo no sistema educacional não é só sobre cortes de verba ou parcerias público-privadas. É sobre a produção de subjetividades dóceis – trabalhadores resilientes que se culpam por não vencer, que naturalizam a meritocracia e que nunca perguntam se o jogo, ele próprio, é justo. O bem mais valioso capturado não é o dinheiro – é a imaginação.

O Modelo Imperialista do Conhecimento

Por que a ciência universitária apaga saberes tradicionais, depois os resgata com outro nome e os vende como descoberta – e o que isso faz com as comunidades que os criaram?

Aqui cabe uma pausa para explicar que essa captura não é uma exclusividade do modelo neoliberal, e sim faz parte do modelo imperialista que se consolidou com a colonização e foi reforçado após o fim da monarquia, com uma burguesia que fundou as universidades e se universalizou pelo epistemicídio e colonialismo científico, ou seja, pela destruição de outras formas de saber. Isso está profundamente enraizado na cultura europeia e foi instaurado em países como o nosso.

Por estarmos na periferia do sistema, olhando da margem para esse leviatã que se ergueu por sobre os países colonizados, é mais fácil perceber como o ocidente norte (mais especificamente, Europa e Norte Americanos) não consegue enxergar isso. Acham que o modelo deles é um modelo NATURAL e que estão fazendo algo bom, por mais que essa tenha sido a máquina de destruição e colonização das subjetividades usada para entrar em outros territórios.

Mas, saindo do campo dos territórios e falando de subjetividade, convido o leitor a discutir esse tópico usando o caso da agroecologia. Um exemplo perfeito de como a ciência se apropria do conhecimento tradicional.

A agroecologia pegou saberes quilombolas e indígenas e, usando o verniz científico, deu valor a algo que já havia sido inventado há muito tempo. O “como fazer” indígena, a parte fenomenológica, foi apropriado pela ciência. Ou seja, o “porquê” foi reeditado, pois a ciência só aceita explicações seculares, materiais, sem qualquer tratamento mitológico ou cultural.

Ao transformar a roça quilombola em “agroecologia”, a ciência capturou a subjetividade das pessoas com novos valores seculares. Filhos de comunidades tradicionais passam a não ver valor no próprio conhecimento – só veem valor se for produzido dentro de uma universidade. A universidade vira a produtora do conhecimento “bom”.

Estamos falando aqui da mesma universidade que foi “pintada” no começo do texto como “lugar de poder e disputa”. Essa transfiguração do conhecimento tradicional em “ecologia” é cara. Fazer um curso de agroecologia hoje é caríssimo. Uma vez formados e com recursos, esses novos rurais (termo já bem utilizado na bibliografia – https://journalppc.com/RPPC/article/view/871) compram sítios em áreas rurais e desenvolvem nova territorialidade. Em suma, ocupam territórios antes ocupados por culturas tradicionais, nem sempre com produtividade eficiente, mantêm ritmos de consumo europeus, aplicam a agricultura tradicional com nome de agroecologia, tudo dentro de um verniz científico e não místico.

Essas pessoas não estão na margem da sociedade. São educadas, têm poder de consumo e capital político para criminalizar práticas dentro do modelo legal hegemônico. Enquanto isso, as comunidades que realmente conservam a floresta, que subsistem e não são mercado consumidor, são expropriadas de seus territórios e de sua identidade.

Como diz Nego Bispo:

“A gente fala uma palavra que a gente não tem. Aí, agora, ecologia. Mas não sabemos porque que essas palavras são utilizadas e principalmente dentro das academias. Por que que as academias usam a palavra ecologia? Por que que elas não usam a palavra cultura quilombola? Por que que elas não usam a palavra roça quilombola? Por que que elas não usam a palavra roça indígena? Porque isso não é mercadoria. A universidade é a parte que transforma os saberes em mercadoria. Só saber que vale na universidade é só saber que é mercadoria. Isso não é mercadoria, não vale. Não existe ecologia, não, rapaz. Existe a roça de quilombo. Existe a roça de aldeia. Existe a roça de ribeirinho. Existe a roça de mariceira, de pescador, de quebradeira de coco. É isso que, se for nós que inventamos isso, aí a universidade muda o nome. E depois vão meter pra nós. Fica nos oferecendo um curso de agroecologia, pô! Pra nós pagar, nenê!”

Síntese:
O imperialismo científico não é apenas uma teoria. Ele opera todos os dias. Rouba saberes, dá-lhes outro nome, cobra por eles e, por fim, expropria os territórios e a identidade de quem os criou. A agroecologia é o exemplo mais didático: a roça quilombola vira mercadoria acadêmica, e quem sempre a praticou é convidado a pagar para aprender o que já sabia.

Conclusão: O Conhecimento como Território em Disputa

O que está em jogo, no fundo, é a disputa pelo conhecimento legítimo. Quem tem o poder de dizer o que é “bom” e o que é “ruim”? Quem pode transformar saber em mercadoria? A universidade, quando se alia ao mercado ou mesmo ao estado neoliberal, reproduz um modelo de desenvolvimento que domina a natureza, captura subjetividades e expropria territórios – físicos e simbólicos.

O modelo imperialista do conhecimento, vendido como universal e neutro, é a ferramenta de uma colonização que continua, agora com verniz científico. Mas, como bem lembra Nego Bispo, a roça de quilombo, a roça de aldeia, a roça de ribeirinho – esses saberes não são mercadoria. E talvez seja por isso que a academia precise mudar seu nome para continuar vendendo o que sempre existiu.

Se você chegou até aqui, provavelmente sentiu esse incômodo na boca do estômago. Compartilhe este texto com um professor, um pesquisador ou alguém de comunidade tradicional. Precisamos avançar nesse debate.

Rodrigo Lemes

Possui graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Federal de Uberlândia (1999), mestrado em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (2002) e doutorado em Ecologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2007). É professor do Instituto de Biodiversidade e Sustentabilidade (NUPEM) da Universidade Federal do Rio de Janeiro, desde 2009. Atua na área de Desenvolvimento Sócioambiental e Ecologia Evolutiva, com experiência em gestão de projetos de caráter interdisciplinar. É representante do NUPEM no Conselho Consultivo do Parque Nacional da Restinga de Jurubatiba (CONPARNA).

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